A Gata das Botas Entrevista

A GATA DAS BOTAS

Entrada em cena, Abril de 1996

Quando é que eu cheguei aqui? Como vim aqui parar? Bom, isso é uma pergunta quase difícil. Eu já cá estou há muito muito tempo. Mas é verdade, ainda me lembro bem quando cheguei a casa que não era esta, havia muito pessoal de 4 patas que também não eram estes. Quando era eu a mais nova havia uma cadela branca com manchas que se chamava Maria a quem tanto se lhe dava como se lhe deu a minha existência. Muito senhora do seu nariz mas também não me chateava. Depois Oh! Depois havia o Romeu, o meu adorado e não correspondido amor Romeu, talvez se me tivessem chamado Julieta e eu tivesse nascido na Serra da Estrela como os antepassados dele, a coisa talvez tivesse corrido melhor, mas não, chamaram-me Rita e não era compatível. Apesar de Rita e Romeu até ligarem bem. Acho que o problema era mais uma questão de tamanhos. Sim se não fosse o tamanho acho que tínhamos suplantado tudo o resto Ah o pormenor de não ser felino se calhar também interferiu um bocadinho, eu explico, o Romeu era enorme, maravilhoso, felpudo, grande, grande, grande cão, tinha um pelo tão grande e fofo que eu tentei vezes sem conta mexer-lhe e imaginava-me escondida, perdida, naquele fofo casaco de lã, mas fora uns toquezinhos aqui e ali tudo o resto não passou da minha imaginação. Eu bem tentei deitar-me ao pé dele mas ele não me amava, apesar de não ter mau hálito não ficava muito confortável quando ele abria a boca toda  e se dirigia a mim. Eu tentei marradinhas, mehés, mehés a torto e a direito utilizei o meu charme todo, e até há quem me chame Sofia Lauren por causa dos meus belos olhos esverdinhoamarelados, mas nada e às vezes ainda o enervava mais e fazia-me narizes ( arreganhava o nariz mas sem som para a mãe não ouvir…)Sobrevivi a essa paixão. Aos dois anos fui apanhada pelo Valdevinos da vizinha que me prendou com quatro lindas criancinhas. Três que eram a cara chapada do pai e uma igual a mim, a minha maravilhosa e saudosa Gioconda, GiGi para os amigos, que me ensinou a fazer tocas e a desfrutar mais do jardim, teve azar cruzou-se com um carro na hora errada e desapareceu. Desde aí tornei-me uma gata solitária. Gostei sempre muito dos meus humanos grandes e do meu humano pequenino com quem durmo desde que chegou. O meu Romeu já se foi, a Maria também, até a outra, a Deedee, que era um bocadinho estranha lá está, a velhice não perdoa, e dessa leva só cá estou eu. Gosto de passear, já conheci vários lugares, uns por iniciativa minha, outros por razões de logística propriamente dita, porque os meus donos já se mudaram três vezes, na outra casa tinha os sítios que queria saia e entrava e não dava satisfações a ninguém.

Depois viemos para aqui, não se está mal, mas depois das velhotas morrerem apareceram cá em casa umas coisas muito esquisitas. Umas criaturas insuportáveis, irrequietas, que eu não percebo como é que se podem aturar. Não vieram todas ao mesmo tempo, mas não me deram tempo para me habituar. Isto são coisas da minha mãe e eu aventuras só no meu papel de Gata das Botas, em casa tenho de me aguentar, a mãe é que manda. Uma das manchas foi há dois anos e não é má de todo até simpatizo com a cachopa, não lhe posso é dizer para ela não abusar, gosta dos cães e quando era tão pequena, mas tão pequena que eu nem percebia o que era aquilo e me fazia impressão, o cão preto, a Margarida, passava a vida a lambê-la. Eu achava bem, até pensei, boa boa, talvez a coma, afinal não, agora são amigalhaças. Depois veio outra, esta muuiito pior, já veio mais crescidota, não faço ideia onde é que arranjaram aquilo, tem um danado de um mau feitio que se puder desatinar comigo não se poupa, eu é que não lhe ligo, já estou velha para estas coisas, ignoro-a mas ás vezes não resisto a tanta falta de respeito e abro-lhe umas gasosas…, mas também não resulta… é mesmo embiralheira.. Tenho que me aguentar Mas o pior O pior mesmo á a criatura

A CRIATURA deixa-me doida!

Eu gostava muito de ficar dentro de uma caixinha que havia no jardim, controlava tudo, e não apanhava frio. A criatura comeu-a, mais o cobertor e a almofada…tudo. Corre atrás de mim, moe-me. A Margarida às vezes também me persegue mas é só pró estilaço… Fedelhos! Eu já me sinto um bocadinho menos jovem, disfarço bem, mas não tenho paciência para a criatura, de vez em quando tenho mesmo que lhe acertar com os garfos.

O que vale é que a partir da hora do jantar acabaram-se as hostilidades, tudo quanto é gente e não gente se reúne, de preferência, em frente à Lareira e nessa altura somos todos iguais, então neste Inverno que foi tão rigoroso era ver-nos espalhados pelo tapete, hora de ponta no tapete da sala!. Eu uso essa altura para meditar nas muitas aventuras que já tive e nas muitas mais que ainda irei ter e que nunca vou contar a ninguém.

Gata Cinzenta Persa X Siamês conhecida por Rita